
15 de Julho, 18h
Apresentação do livro Área Afectada
Autor: Fernando Esteves Pinto
Apresentação: Miguel Godinho
Leituras de poemas: Ana Manjua
LITERATURA * EDIÇÕES * DIVULGAÇÃO *


Aída Monteón
Originaria de Guadalajara, México, Aída Monteón cursó la Licenciatura en Homeopatía, la que actualmente ejerce como parte de su proyecto de vida.
De que forma a poesia entrou na tua vida?
É natural que qualquer pessoa que leia muita poesia e que goste muito de poesia, também escreva poesia... Simplesmente optei por não divulgar o que escrevo. O meu papel, na poesia, até agora, tem sido divulgar os outros, não a mim. Até porque tenho muita insegurança quanto à qualidade da minha poesia. Ainda não é suficientemente madura. Talvez um dia...
Crês que existe um excesso editorial que se traduz numa asfixia que atinge sobretudo os poetas e as suas obras quando têm de dividir o mesmo espaço (livrarias) reservado à literatura em Geral?
Sim. Por vezes vejo-me numa livraria de um lado para o outro tentando encontrar a secção de poesia. Quando me dizem onde está, constato com pesar que se reduz a meia prateleira, por vezes ao nível do chão, como 20 ou 30 livros. E quase todos da mesma editora. E alguns, já muito antigos, pouca novidade. Dantes ainda refilava com os livreiros a ver se conseguia mudar alguma coisa, ou seja, se eu perguntasse por este e por aquele poeta, iria chamar a atenção para a falta desses livros e eles iriam encomendar, mas já desisti. Nunca se vê um livro de poesia em destaque. Ou pelo menos, é raro. Para se encontrar bons livros de poesia, o melhor é irmos a livrarias especializadas, como a Poesia Incompleta ou a Ler Devagar, em Lisboa, assim como outras boas livrarias especializadas que existem pelo país. Por exemplo, aqui em Faro, temos a Pátio de Letras, onde podemos encontrar livros que não existem nas livrarias ditas “normais” ou de grandes cadeias. Os livros que passam à margem das grandes distribuidoras, como os de editores independentes, não estão na maioria das livrarias do país.
Foste a grande responsável pela edição duma obra de poesia “Os dias do Amor”, da editora Ministério dos Livros. Imagino que tenham sido dias de verdadeiro entusiasmo e paixão pela poesia. Como surgiu a ideia de coordenares, sozinha, um trabalho de enorme dimensão? Deparaste-te com alguns obstáculos?
A história dessa antologia dava para escrever um livro... Mas vou tentar ser sucinta.
Uma amiga minha (Catarina Ferreira) tinha acabado de abrir uma editora e pediu-me para organizar uma antologia de poesia. Foi em Junho de 2007. Queria apostar na não-ficção e fazer uma experiência com Poesia. Eu aceitei logo. Propôs-me no início 365 poemas (um para cada dia do ano) e com a temática do Amor.
Houve outra restrição: uma vez que se tratava de uma editora pequena e recente, com pouco fundo de maneio, teria de usar poemas de autores cujos direitos já estivessem em domínio público. Quando “meti mãos à obra” decidi que não iria repetir poemas do mesmo poeta, mas fazer a antologia com 365 poetas diferentes, para poder ter uma abordagem mais diversificada. Isto complicou um pouco mais, pois teria de arranjar mais poetas e, além disso, todos em domínio público. Portanto, primeiro filtro: impossibilidade de pagar direitos; segundo filtro: só poemas de Amor. Fiz este trabalho durante 1 ano e meio. Tive ajudas preciosas: do poeta Amadeu Baptista, que passou palavra aos poetas seus amigos e conhecidos que começaram a enviar-me poemas. E ele próprio também traduziu alguns poemas para este livro. Tive também ajuda e aconselhamento de outros poetas como o E. M. de Melo e Castro. Também do poeta Casimiro de Brito, por exemplo, que me deu imensos poemas japoneses traduzidos por ele, etc. De uma maneira geral, contactei vários poetas meus amigos ou meus conhecidos que entretanto passaram palavra a outros poetas e a coisa transformou-se numa espécie de corrente-de-poemas-de-amor-para-enviar-para-a-inês. Este livro foi atípico porque não foi um produto encarado pelas pessoas como comercial. Foi antes um livro colectivo feito com partilha e generosidade, pois todos sabiam que eu estava a fazer o trabalho gratuitamente. E por isso também todos colaboraram gratuitamente. O livro esgotou nos armazéns da distribuidora logo no dia em que saiu para o público, neste momento vai em terceira edição. E ainda não fez um ano que saiu. Mais do que uma antologia de poemas de Amor, o livro tornou-se numa antologia feita com Amor, por mim e por todos quantos ajudaram a fazê-la nascer, com os seus poemas, com as suas traduções, com os seus conselhos, com a foto da capa que também foi oferecida por um poeta, etc…. Foi muito entusiasmante fazer este livro.
Que projectos se seguem? Quais são os teus principais objectivos em relação à poesia?
Entrevista publicada no suplemento S do jornal Postal do Algarve
Antología de relatos luso-canaria
A. M. Pires Cabral, António Manuel Venda, Maria do Rosário Pedreira, Fernando Esteves Pinto, Filomena Marona Beja, Gonçalo M. Tavares, José Carlos Barros, Lída Jorge, Miguel Real, Maria Antonieta Preto, Paulo Bandeira Faria, Paulo Kellerman, Rui Costa, José Rivero Vivas, Eduvigis Hernández Cabrera, Anelio Rodríguez Concepción, José Manuel Hernández, Gabriel Cruz, Víctor Ramírez, Roberto Cabrera, Quintín Alonso Méndez, Javier Hernández Velázquez, José Manuel Brito, Eduardo Delgado Montelongo, Alicia Llarena, Agustín Díaz Pacheco.
Coordenação: Agustín Díaz Pacheco e Fernando Esteves Pinto
Prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho
Sobre Sexo Entre Mentiras de Fernando Esteves Pinto: comentarios de una lectora
Llevo días rumiando con la novela de Esteves Pinto, Sexo entre mentiras así que he decidido escribir estos humildes comentarios sobre la misma. Para mí esta novela es un tratado de teoría sobre la escritura. Nos presenta lo que yo llamaría, su ejercicio epistémico de la escritura: “[me refiero] al uso más desarrollado cognitivamente, en el que el autor, al escribir, transforma el conocimiento desde su experiencia personal y crea ideas.” (En psicología, Wells, 1987).
Ese ejercicio en esta novela es el intento de tratar de explicar a través del lenguaje, de la palabra, el cómo se construyen a su vez las mismas y cómo el lenguaje recrea: ¿“la realidad” o “la fantasía”? Nos evoca aquello que escribió (no recuerdo quién) que decía: “el actor miente para decir la verdad.” Refiriéndose al drama, a la actuación, y que en este caso de Esteves Pinto se puede aplicar al escritor o al poeta. Por eso, llega en un momento a inquietarnos esta narración. Porque nos da la sensación de estar perdidos en un mundo recreado a imagen y semejanza de un narrador que no vive sino, en “la palabra misma”. Está describiéndonos su verdad y tratando de hacer la palabra su certeza:
“Quienes dicen la verdad son personas que crean las mentiras del mundo en el que viven. Lo veo en mí: escribir es mentir dentro de una verdad”. (p. 18).
Es más un texto filosófico-psicológico que una novela que habla sobre el erotismo o sobre la soledad de la mujer, complementándola con lo que llamamos modernamente el mundo virtual. Ésta es la anécdota. Tema que tiene tela para cortar pero, del cual desgraciadamente soy una ignorante completa. Porque personalmente no he querido entrar nunca a esa esfera de la Internet, demasiado morbosa para mí, donde creo, que en un mundo donde ya de por sí, comunicarnos nos cuesta tanto y más, con alguien que está al otro lado de la pantalla. Ese alguien que nos puede estar mintiendo (¿dije mentira?) o nos puede estar desnudando la verdad más agria y dolorosa. Todavía prefiero la sana manera de mirarnos a los ojos del interlocutor y tratar de leer los signos de la bondad o los signos de la maldad humana. Por eso creo que a Esteves Pinto le costó tanto escribir esta novela como él mismo expresa en la “Nota introductoria”. Definitivamente, tuvo que ser un trabajo de recurrente análisis para no caer en la subjetividad más completa y mantener un poco de objetividad. Un poco, porque nunca lo somos del todo, no existimos sin nuestros prejuicios, estoy segura que el autor estaría de acuerdo conmigo. Conozco hace tres años a Esteves Pinto, conozco al amigo, al poeta y al editor independiente y créanme, es completamente inofensivo. Yo que siempre estoy tratando de sacar lo biográfico de todo lo que leo, porque soy una aprendiz de escritora completamente autobiográfica, no encontré mucho de Fernando en estas páginas. Lo que encontré, una vez más, fue a su cerebro acelerado, siempre quisquilloso y perspicaz para hacernos pensar con sus preguntas existenciales. La sinceridad del que narra llega a decirnos: “Son mentiras verdades de alguien que sufre por una verdad.” (p.18)
Abarca esta novela varios temas y todos ellos vistos bajo la lupa de este escritor-narrador a veces; airado, triste, erótico, bebido, sobrio, en búsqueda siempre… Y a través de unos personajes femeninos que gritan sus soledades y sus abandonos de formas distintas pero unidas todas por lo erótico y el debatir la definición del amor de pareja. Creo que este narrador en búsqueda no encontró verdades, sino, interrogantes. Eso sí, creo que hizo su exorcismo brillante en tratar de llevar “a la idea” a la página en blanco. Describir el mundo de alguien que intenta ser feliz a través del dolor de ser, que siempre duele doblemente. La crueldad, la violencia, la mentira, la verdad, la locura, la humildad, los soñadores, la venganza, la inocencia, la soledad y la infancia son parte de los temas expuestos.
Más, el tema del amor y la escritura como simbiosis, me parece el más original y el mejor expuesto. Lo comunicante como expresión amorosa unida al sufrimiento y la mentira:
“ […] El sufrimiento es requisito para el que ama. Si no estuvieras dispuesto a sufrir, no sabrías amar. […] El miedo a amar se debe a que el gran amor, al ser sincero y verdadero con aquél que nos ama, siempre nos destruye. Todo lo demás es una oración de sufrimiento que se arrodilla ante el corazón”. (p.14)
“ […] Estoy, ya lo sabes, en el sufrimiento, pero las palabras me sirven de defensa. Siempre he querido saber mucho sobre los demás, mucho más allá de lo humano, y ahora creo no saber nada de mí, nada en la terrible consciencia de haber vivido sus aflicciones. Quien me lee ahora no imagina el sufrimiento que fue preciso condensar en un tiempo de escritura para que todo volviera a tener una vida que escapase a la ficción de existir en mi pensamiento. Exijo silencio a mis palabras.” (p.15)
“ […] El amor es un libro en blanco del conocimiento donde el tiempo escribe los sentimientos del que ama. […] El amor dura mientras haya materia desconocida del otro. […]” (p.28)
“- La escritura es sufrimiento. Padecer la escritura para que el texto nazca.” (p.30)
“[…] ¿Qué queda, sino joder la escritura? Joderla con dolor. […]” (p.31)
“[…] ¿Por qué las historias tristes son tan hermosas? Pienso que porque hay mucho amor dentro de ellas. […]” (p.38)
[…] Siempre sentí esta manía de amar a través de la escritura. […] (p.42)
“Tengo miedo de que las palabras digan más de lo que siento, porque las palabras mienten y el ejercicio de la mentira siempre ha dado una buena escritura a mis sentimientos. […]” (p.43)
“ […] Si quieres ser feliz, entiende mi infelicidad como una creación. Y no valores al hombre que escribe por la mujer que ama. Pues el amor es el arte de la corrupción emocional y el hombre es el artista del amor corrompido.” (p.44)
“ […] Y la literatura siempre será una galería de mentiras conservada con mimo. Tan de verdad representadas. […]” (p.45)
“ […] Amor y literatura son parecidos en la mentira, y es triste no amar a alguien porque se tenga miedo de la mentira. […] (p.57)
“ […] La verdad es un lenguaje del silencio. Nunca temí al silencio, pues el silencio es mi forma de vivir. […]” (p.57)
“ […] Porque la escritura es más la pérdida que el beneficio de lo que pensaba escribir. Como el amor, es más la representación que el sentimiento.” (p.111)
“ […] Pero el amor sigue, no sé si te das cuenta, el amor sigue aunque no haya a quien amar. También la escritura sigue sin palabras visibles hasta que no encontremos un fin a lo que sentimos.” (p.113)
“ […] El pensamiento es una barrera contra el silencio. La escritura es la construcción de esa barrera. Escribir es estar atento al valor del pensamiento.” (p.115)
“ […] Se aprende sólo tras el daño. Tal vez después del sufrimiento la vida siga a tu disposición en una lección de amor a los demás. […]” (p.120)
“ […] La escritura quiere a quienes no temen la soledad.” (p.146)
“ […] El silencio está hecho con las palabras que nos duelen, y todo es una escritura apresurada cuando decimos algo a otro. […]” (p.150)
Como se puede apreciar en estas citas, sacadas con toda intención de su contexto, la novela nos devela un pensamiento profundo, el pensamiento de un indagador, el pensamiento de alguien que desea entender en última instancia a la mujer, entre otras cosas. Bueno, y porque soy mujer, creo que esta tarea la lleva a buen fin, tratando de describir lo erótico en nosotras y en dos citas de este libro me sentí identificada. No porque sea la visión que tengo de mí misma sino, por la particularidad de ese intento masculino de entender lo femenino. ¿Alguna vez, nosotros, los hombres y las mujeres, podremos entendernos desde nuestros lenguajes particulares, desde la palabra misma, desde esa magia que nos acerca y nos distancia como género? Sinceramente, a esta altura de mi vida, no me importa y como dice este escritor-narrador: “ […] Estoy en una edad en que la verdad ya no precisa esconderse. No sé mentir. […] (p. 151).” Y aquí los dejo con estas dos citas, sabuesas y deseantes…:
“ […] Es triste tener que llegar a este estado y por eso pienso que ella escribe mejor cuando las palabras le salen del cuerpo casi deshaciéndose en un dolor demoníaco, una fiebre loca que se encuentra en ciertos poemas femeninos que buscan en el infierno de la inspiración la verdad que se oculta en una vida tan triste.” (p.123)
“ […] Dios mío, las mujeres que escriben subliman tanto el amor con sus versos, que es una emoción tan jodida como tener a Florbela Espanca desnudándose frente a uno y en vez del cuerpo desnudo como un sol caliente en mi sexo, veo una boca vaginal declamando tristes mentiras que el amor me hace ver.” (p.124)
Los exhorto a leer esta novela con el lente de la inteligencia, más allá de la anécdota y de nuestros minúsculos egoísmos, con el corazón en los ojos, para que puedan alcanzar a sentir lo: “que el amor me hace ver.”
Maribel Sánchez-Pagán
Tampa, Florida
16 de Noviembre de 2009.
“Os Nossos Dias” é a tua estreia em livro, editado pela 4águas. Quando é que a poesia começou a fazer parte dos teus dias?
1 – O teu processo inicial na escrita foi bastante intenso: inúmeras edições de autor, e um conjunto de textos (75 edições - de 2002 a 2005 - a que deste o nome de Fascículo. Foi uma declaração de amor à literatura?
Não sei se foi uma declaração de amor; diria talvez que foi uma declaração de existência. A edição de autor sempre me pareceu uma forma de divulgação do trabalho tão legítima como outra qualquer, a que recorri com naturalidade; se fosse hoje, talvez tivesse preferido as diversas ferramentas que a internet faculta. Mas o importante era agir, divulgar o trabalho; não ficar de braços cruzados, à espera. Não tanto declarar um amor mas antes declarar uma presença.
2 – É curioso verificar que, sendo tu um jovem autor, tivesses a preocupação de procurar os leitores dos teus livros artesanais, chegando inclusive a enviares algum material para as bibliotecas públicas. Queres recordar esses tempos?
Correspondeu a um período muito interessante mas que, naturalmente, foi ultrapassado. Havia alguma utopia, alguma ingenuidade, uma crença inabalável no valor do meu trabalho mas também na generosidade dos leitores, na possibilidade de conseguir captar a sua atenção. Importante parecia-me desenvolver um esforço de divulgação, de procura de um público, de afirmação do nome; ser activo e diligente, se possível original. Ir à procura de quem se pudesse interessar, leitor a leitor.
3 – Colaboraste no DNJovem (suplemento literário do Diário de Notícias), coordenado pelo Manuel Dias. Como sabes, o DNjovem foi a primeira casa editorial de muitos escritores, hoje bem conhecidos no meio literário português: José Eduardo Agualusa, José Luis Peixoto, Pedro Mexia, etc. até que ponto foi importante a tua passagem pelo suplemento?
Colaborei no DN Jovem com muito gosto, com muito orgulho, mas apenas circunstancialmente, num período inferior a um ano; todos os textos que propus foram publicados mas nunca participei em encontros ou nada disso. E confesso que, na altura, pareceu-me mais estimulante a colaboração que mantive com o DNa, o suplemento editado pelo Pedro Rolo Duarte.
4 – Finalmente foste descoberto pela Deriva, editora à qual ainda hoje estás ligado como autor. Sentiste alguma vez que essa recompensa, justa, te trouxe maior responsabilidade perante quem apostou no teu trabalho e os teus leitores em geral?
Certamente. Encaro a minha actividade enquanto escritor com grande seriedade e sou muito exigente para comigo próprio, muito rigoroso; não vejo isto apenas como uma diversão, um entretenimento.
5 – Os teus livros são lidos maioritariamente por mulheres. É intencional o facto de a tua escrita se dirigir ao universo feminino? Como sabes, as mulheres lêem mais que os homens.
Serão? Não faço ideia. A minha escrita não se dirige a ninguém em específico e muito menos a um grupo tão genérico, tão heterogéneo. Penso até que a crueza das estórias, a sua destituição de artifícios, de descrições, lhe confere uma maior abrangência, de modo que se crie algum grau de empatia com leitores muito díspares. Parece-me perigoso e restritivo, artificial, escrever para um público definido e demarcado, para alguém em específico.
6 – Verifico que os espaços físicos das tuas histórias têm algo de claustrofóbico. A acrescentar a isso, cada conto tem uma ou duas personagens. É economia estrutural ou, noutra perspectiva, por sentires que mais de duas personagens na mesma história é para ti uma multidão? Logo, com um nível de dificuldade que te inibe de gerir pessoas e actos no mesmo espaço.
Interessa-me manter as narrativas simples, sem artifícios nem grandes encenações, sem malabarismos. É assim que encaro as minhas estórias: despojadas e cruas, directas. Talvez um pouco corrosivas, intimidatórias até. Sem ruído nem cenário, sem acessórios. É uma escrita que procura fixar momentos, reter-se em instantes, em fragmentos de vidas. Não há passado nem futuro, não há verdadeiros contextos: apenas um retrato fugaz e efémero, frio. Como uma fotografia; ou melhor: uma radiografia.
7 – Após três livros de histórias breves (contos), nunca te sentiste tentado a escrever um romance? O que te falta para experimentares esse género literário?
Acabei de entregar uma peça de teatro original que irá ser encenada em breve; se me dissessem há um ano que iria escrever uma peça de raiz, duvidaria muito. Fui também convidado a integrar um projecto musical, para o qual escrevo letras; se me tivessem dito um dia antes do convite que iria escrever letras para canções, ter-me-ia rido. As coisas acontecem com naturalidade, correspondendo a desafios, a vontades inconscientes, a estados de espírito momentâneos. Haverá um romance quando tiver que haver; amanhã, quem sabe; ou nunca. Fiz umas experiências em tempos mas não foram esforços honestos, na sua génese estavam motivações desadequadas; foi um erro, que tentarei não repetir. E de qualquer modo, irrita-me um pouco a insistência na necessidade de haver um romance; como se escrever contos fosse um esforço menor e despiciendo, uma simples preparação para algo maior e não um trabalho meritório em si mesmo, auto-suficiente. Pergunto-me, por exemplo, se alguém andará atrás dos poetas a questioná-los quando escreverão livros de ficção científica; ou se serão apenas os contistas que são condenados a uma espécie de anátema literário por ainda não terem escrito um romance.
8 – Na temática dos teus livros há um certo desencanto conjugal e uma esperança indecisa que dominam negativamente as personagens. É o lado menos iluminado da vida que te inspira?
Pois, o que me inspira… Seria mais fácil (mas também muito desinteressante) se se conseguisse definir de modo científico onde reside a inspiração, o que despoleta o processo criativo; e, depois, bastaria criar automatismos, desenvolver rotinas: e a obra nasceria, enfadonha e desnecessária. Mas não funciona assim. A inspiração, no meu caso, pode nascer de dezenas de modos imprevisíveis: uma frase num livro, a violência do gesto num estranho, a expressão de um rosto, o som forçado de um riso na televisão, uma ideia despropositada ou a reminiscência de um sonho, um comportamento rotineiro e inconsciente de alguém; qualquer coisa fugaz e abrupta, irrepetível. E depois há vontade de interrogar, de especular, de procurar descobrir e saber e perceber.
9 – Geralmente, um escritor tende a ser autobiográfico na fase inicial da sua carreira literária. Depois há os que abandonam essa particularidade, completamente, e os que escrevem sobre os outros ligando-os discretamente à sua própria biografia. Quanto das tuas histórias é autobiográfico?
Esse é o segredo, não é? As minhas estórias são inquestionavelmente ficções; mas em cada uma delas há sempre um pedaço de verdade, de autobiografia, que varia muito. Não me compete nem me interessa revelar qual a dimensão desse pedaço, em cada estória; caberá ao leitor adivinhá-lo, caso lhe apeteça.
10 – Numa das nossas conversas disseste-me que receavas ter esgotado a temática dos teus livros. Já tens alternativas? Que Paulo Kellerman vem a seguir?
Não será tanto uma questão de esgotar temáticas mas mais uma questão de não as repetir obsessivamente. É terrível que um escritor se deixe cair na redundância, na inconsequência, que seja incapaz de se surpreender a si próprio. Tento permanecer vigilante e auto-crítico, ser implacável para comigo mesmo; reflectir sobre o trabalho e colocá-lo permanentemente em questão; é portanto inevitável que surjam dúvidas e hesitações. O fundamental é que persista a vontade (a necessidade) de procurar e perceber, de ir mais além e mais fundo, de aprender e questionar, de desafiar.
Entrevista publicada no suplemento S do jornal Postal do Algarve
1 – Depois de “A Nuvem Prateada das Pessoas Graves” – 2005, passando por “O Pequeno-almoço de Carla Bruni (2008), e agora o mais recente livro de poesia “ as Limitações do Amor são Infinitas”, consideras que houve uma evolução ao nível da temática e poética na tua escrita?
Entrevista publicada no suplemento S do jornal Postal do Algarve
O romance A Casa do Esquecimento, vencedor da edição de 2008 do Prémio Literário
Fnac/Teorema é a estreia na ficção de Fernando Dinis. O autor nasceu em 1976. Estudou piano. Publicou em 2003 o primeiro livro de poesia “Dá-me-te”, (Hugin Editores). Em 2006 participou na antologia bilingue “Poema Poema - Antologia de Poesia Portuguesa Actual” - Huelva). Em 2008 participou na Revista Big Ode 4 e na Primeira Antologia Portuguesa de Micro-Ficção (Exodus Editora). Lançou o disco Piano Works, o primeiro trabalho de composição em piano. A Casa do Esquecimento dividiu a crítica literária, sinal de atenção e expectativa sobre um autor que procurou um tema complexo (o destino e o esquecimento) para revelar as suas capacidades ficcionais.
– O destino e o esquecimento constituem o tema central do teu livro “ a casa do esquecimento”. Poderá alguém, num dado momento da sua vida, sentir que o seu próprio destino é susceptível de sofrer alterações e manipulações por parte de quem nos relacionamos?
Entrevista publicada no suplemento S do jornal Postal do Algarve
No âmbito do 1º aniversário do Pátio-Bar, encontro de poetas da editora 4águas.
Dia 13 de Setembro, às 21:30 no pátio de Letras - Faro.
Autores:
Miguel Godinho
Pedro Afonso
Rui Dias Simão
Editores:
Fernando Esteves Pinto
Vitor Cardeira